
Quem me conhece sabe do meu apreço pelos livros da série Jogos Vorazes. Devorei os três no ano passado, quando eles ainda eram bem pouco falados no Brasil - e ao mesmo tempo ia tentando convencer todo mundo que conheço a lê-los também. O desafio maior era fazer com que as pessoas acreditassem que, ao contrário da publicidade idiota, os livros de Suzanne Collins não têm nada a ver com as bobagens vampirescas e lobisomísticas de Crepúsculo. Caramba, é um livro onde duas dúzias de adolescentes se matam de todas as formas possíveis!
Eu estava (literalmente) contando os dias para a estréia do filme. Dia 23 de março, dia 23 de março: a data estava marcada na minha cabeça. Quando o dia chegou, passei a manhã num estado de excitação que beirava a histeria. Foi o mais perto que já cheguei do frenesi adolescente por filmes baseados em séries de livros de sucesso. Mas grande parte da minha ansiedade era porque tudo indicava que o diretor Gary Ross parecia que tinha feito tudo certo: chamou Suzanne Collins para ajudar no roteiro. Escalou um elenco impecável, desde a protagonista Jennifer Lawrence até Donald Sutherland num papel bem pequeno nesta primeira parte da trilogia. O trailer me deixava marejado de emoção, só de ver aquele universo na tela.
Dizem que certeza absoluta não existe, mas digamos então que eu tinha 99% de certeza que Jogos Vorazes seria um filme incrível (ainda mais quando a crítica em peso adorou). Toda a minha expectativa e ansiedade foram justificadas: o diretor fez um filmão. Essa confiança antecipada no trabalho de Gary Ross me ajudou, pois foi fácil perdoar alguns pequenos deslizes. É muito pouco pra reclamar perto de tanta coisa sensacional.

A cena da foto acima é exemplar. Katniss (Jennifer Lawrence) acabou de ser a escolhida para participar dos Jogos Vorazes - onde 24 adolescentes começam e apenas um termina vivo. Nas mãos de um diretor menos respeitoso, e inteligente, a cena seria acompanhada de uma música dramática, querendo acentuar a tensão e a tristeza da situação. Mas Gary Ross filma tudo num silêncio acachapante. É muito mais devastador dessa forma: quando o nome de Katniss é anunciado, não é preciso nenhuma música para que a gente sinta o peso que cai sobre os ombros da garota. Junte essa escolha ao cenário fabuloso - que lembra uma cerimônia nazista - e o resultado é uma sequência memorável.
E o diretor surpreende ainda mais com as sequências na Capital, a terra do luxo, da riqueza e do desbunde. Ross tem um olho sensacional para o espetáculo. A câmera captura todo o absurdo de uma cidade que comemora loucamente o início de uma chacina. Os figurinos, incríveis/ridículos como no livro, trazem à mente as viagens de Laranja Mecânica. Os painéis que exibem os tributos (os adolescentes escolhidos) são um achado, acentuando a noção de "esporte" que a Capital dá aos Jogos. E quando os painéis multiplicam a imagem do apresentador Caesar Flickerman (Stanley Tucci numa atuação cativante, dinâmica e diabólica ao mesmo tempo), o efeito é perturbador: estamos diante de um American Idol do inferno.
O elenco secundário por si só renderia dez parágrafos. Merece destaque Elizabeth Banks, impecável na sua doce futilidade com os luxos da capital - sua Effie Trinket realmente nem arranha a profundidade que os Jogos possuem, mas ainda assim ela é adorável e cômica. E Donald Sutherland também merece mil elogios. O ator veterano é sábio o suficiente para não encher o presidente Snow (o grande vilão da trilogia) de caretas malvadas e olhares venenosos. Nesse primeiro filme, Sutherland interpreta Snow quase como um filósofo - e assim dá uma profundidade assustadora ao personagem.
Várias pessoas reclamaram do fato de as mortes no filme não serem tão perturbadoras/explícitas como no livro (só assim para o filme conseguir censura 13 anos nos Estados Unidos). Entendo o lado delas, mas não vou reclamar. E nem poderia, após a morte de um tributo dos mais queridos. Assim como no livro, é uma cena devastadora. E a reação que essa morte provoca me deixou em prantos. É a melhor cena do filme. Quando duas palavras apareceram na tela, descrevendo um local, provocaram em mim uma sensação que só o cinema consegue. É por momentos assim que eu amo ir ao cinema. Eu posso estar exagerando, mas eu sempre fui fã dos superlativos: com Jogos Vorazes, nasce um clássico.



